sábado, 18 de maio de 2013

Um breve apelo



Venho por este meio, um pouco pobre e fácil, apelar por aí, ao mundo vasto e escondido da Internet e do pessoal altamente bué.
Venho apelar a que pensem, mas não pensem só por pensar; a que parem e digam: "Eh, pá, sou mesmo um retardado mental; tenho de melhorar."
Fiz isso a primeira vez, não me lembro bem quando, mas agora é a minha terapia, quando me sinto em baixo, ou seja, tornou-se a minha rotina matinal. Acordo e detesto-me logo de seguida, tomo um banho e detesto-me um bocadinho menos; sou um detestável mais limpinho. Não vou recitar a minha rotina matinal, só queria contar qual costuma ser o primeiro passo dum longo e chato dia: aperceber-me de que estou errado aqui, que sou uma má pessoa, que sou incorrecto, egoísta, preguiçoso, mesquinho e hipócrita. Só então posso iniciar o meu dia, pronto para uma batalha interior. Uma batalha pelo melhor, para que o meu pequeno contributo possa ser significante, mesmo que apenas seja evitar pisar uma formiga e, assim, salvar a vida desse parvo animal, mesmo que apenas seja dizer bom dia à velha do café, porque ela é muito simpática em servir-me um croissant delicioso.
Acho que o ser humano adulto, ou semi-adulto, é mau por natureza, por apontar sempre o dedo aos outros e nunca a si, como eu estou a fazer agora a vocês. Percebem-me? Por isso, ao menos apontem o dedo aos outros e depois melhorem. Pensem nos outros como gostariam que eles pensassem em vocês; tentem perceber que vocês são uma pessoa num mundo de biliões. Mas calma, não percebam demasiado, senão entram em depressão. Pensem no grande senhor, caso isso vos apele à sensatez, mas lembrem-se, meus amigos, que esse senhor também fazia cocó.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

excerto de uma pequena história que escrevi

[...] o corpo a crescer com as maminhas a atingirem uma certa desenvoltura que valesse a pena desenhar com um decote. Estas descobertas tocaram-lhe imenso, ficou ávida de aventuras e não quis parar. Perdeu a virgindade com um rapazote que, apesar da enorme trunfa sempre penteada para o lado, como mandava a lei dos surfistas, não tinha pelos debaixo do braço. Os pais claro, não suspeitavam sequer que ela já se interessasse por usar saltos altos, quanto mais que ela começasse a fumar.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Argumento para curta metragem #1


Escrita de um pequeno argumento para a disciplina de argumento do curso de vídeo na etic. Inclui backstory da personagem, conflito e resolução.

O estômago dele roncava. Ele próprio não percebia muito bem porquê aquele bar; tinha ido lá parar, depois de horas a vaguear pela cidade. Era um bar de uma escola, cuja entrada surgia depois de um túnel e ele estava sentado numa mesa ao canto, despercebido. Se alguém se desse ao trabalho de o analisar bem, a sua postura mostrava uma falta de muita coisa, aparte da fome invisível, o rapaz na casa dos vinte, apresentava-se desconfortável, apático e com a higiene por fazer em muitos aspectos, desde dentes amarelos, barba grande e a pele bem suja. A sua camisola e o seu casaco de ganga, velho e sujo, não deixavam que o cheiro a acre do seu corpo, nauseabundo por falta de banho, se notasse. Sentado no seu canto fantasmagórico observava, indolente, o espaço e as pessoas. Quanto mais se concentrava nas pessoas que comiam mais sentia a agonia da sua fome. À sua frente, nas mesas no meio do bar um grupo grande de rapazes comiam, alegres e conversando, metendo as sandes à boca enquanto sorriam uns aos outros ao mesmo tempo, contando histórias e anedotas. A fome era agora realmente forte, e os apertos do estômago faziam-no jogar a mão à barriga e ter pena dele próprio, como fazia muitas das vezes. Sentia-se um mártir, por um lado achava que merecia aquele estilo de vida pois considerando as hipóteses de porcaria que fez na sua vida, assim ao menos está a fazer justiça com as próprias mãos, nele próprio. Depois de ter tido, durante todo o seu crescimento, uma vida próspera, farta em valores e boas maneiras, decidiu fugir de casa, tornando-se independente. Os primeiros anos foram de felicidade, mas agora a situação estava diferente; olhava para trás com saudades da família e da vida que podia ter tido. Mas o seu orgulho não o permitia procurar ajuda dos pais, tinha de se salvar a si próprio. Ali no bar todos esses pensamentos passavam-lhe à velocidade da luz enquanto via as pessoas a comer e a beber, pessoas que são como ele era. A vergonha em se levantar e pedir uma moeda ao grupo de rapazes era demasiada, eles não o iam perceber. Foi então, quando a rapariga ao lado dele se levantou e deixou moedas para pagar no prato, que ele pensou duas vezes. Nunca esteve tão perto de roubar, só tinha de se certificar que ninguém à volta o via. Olhava à sua volta, congelado pelo medo de ser visto, mas tudo permanecia igual, ninguém parecia estar a observá-lo nem sequer deviam saber que ele estava lá. Os seus olhos concentravam-se nas moedas. Dois euros e sessenta cêntimos, conseguiu ele contar. Ele tinha a certeza, ia pegar nelas, agora. Então o empregado passou de rompante e levou o prato com ele. Ele ficou congelado, tinha sido apanhado? Mas não, nem o empregado reparara na sua existência. Seria ele um fantasma? Ninguém parecia sentir a sua presença, nem o empregado que com tanta ligeireza levou as moedas sem se aperceber que o fantasma por pouco não as pegava. A sua mente já estava muito confusa, decidiu ir-se embora dali, depois de beber um copo de água. Levantou-se e dirigiu-se ao balcão, com o mesmo ar fantasmagórico em que ninguém reparava que ele existia. Encheu o copo de água e fazendo corresponder o seu gesto à sua sede, dava golos enormes e quase nem dava tempo a si próprio pra respirar. Quando estava a encher o segundo, reparou numa baguete que parecia estar ali perdida. Seria tal como ele, aquela baguete, um fantasma? Mudou, começou a beber o segundo copo de água muito lentamente, olhando em volta, observando os clientes do bar conversando, acabando os cafés e os sumos. O suor que lhe corria na testa dava-lhe comichão, por fora e por dentro. Estava a sentir-se a deslizar e cair num poço sem fundo em que aquela sandes era a única coisa no mundo que o permitisse manter à tona. O empregado estava de costas a lavar a loiça, e ainda ninguém se tinha apercebido daquele fantasma. É agora, pensou o espectro invisível. Jogou a mão à baguete. Com a manga escondeu o pão e ficou um segundo a observar. Ainda era invisível a todos, então precipitou-se para a saída. Quando estava quase a sair, a mão do empregado tocou-lhe no ombro e ele congelou, virou-se para trás e agora todas as pessoas do bar o olhavam com um ar de censura e asco, paralisados pelo que haviam assistido.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Boas noites te assistam. Pudesse eu ter-te aqui ao meu lado com a tua cabeça pousada no meu ombro mais cedo mas não e palavras não as tenho sequer para te dizer como gosto de ti. E, mesmo se as tivesse, seriam em vão porque nunca irias perceber. Ao menos, se as pessoas não banalizassem as palavras, eu diria que contigo seria feliz; mas não serve de nada, já está tudo dito por toda a gente, essa gente que em vão desperdiçou a língua com amores que acabam em minutos. O meu, posso-te garantir, é infinito. Não no tempo nem no espaço. É infinito no tamanho.
Com bastante frequência perguntava-me se alguma vez aquilo iria passar, se algum dia os meus pensamentos deixariam de pairar sobre ti, com a força que me existias, personificada na tua imagem, e, dia após dia, a resposta manteve-se. Era contigo que eu seria feliz, seria contigo que eu me sentiria realmente completo mas nunca foi, nunca chegou a ser. Naqueles dias eras tudo para mim