sexta-feira, 5 de abril de 2013

excerto de uma pequena história que escrevi

[...] o corpo a crescer com as maminhas a atingirem uma certa desenvoltura que valesse a pena desenhar com um decote. Estas descobertas tocaram-lhe imenso, ficou ávida de aventuras e não quis parar. Perdeu a virgindade com um rapazote que, apesar da enorme trunfa sempre penteada para o lado, como mandava a lei dos surfistas, não tinha pelos debaixo do braço. Os pais claro, não suspeitavam sequer que ela já se interessasse por usar saltos altos, quanto mais que ela começasse a fumar.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Argumento para curta metragem #1


Escrita de um pequeno argumento para a disciplina de argumento do curso de vídeo na etic. Inclui backstory da personagem, conflito e resolução.

O estômago dele roncava. Ele próprio não percebia muito bem porquê aquele bar; tinha ido lá parar, depois de horas a vaguear pela cidade. Era um bar de uma escola, cuja entrada surgia depois de um túnel e ele estava sentado numa mesa ao canto, despercebido. Se alguém se desse ao trabalho de o analisar bem, a sua postura mostrava uma falta de muita coisa, aparte da fome invisível, o rapaz na casa dos vinte, apresentava-se desconfortável, apático e com a higiene por fazer em muitos aspectos, desde dentes amarelos, barba grande e a pele bem suja. A sua camisola e o seu casaco de ganga, velho e sujo, não deixavam que o cheiro a acre do seu corpo, nauseabundo por falta de banho, se notasse. Sentado no seu canto fantasmagórico observava, indolente, o espaço e as pessoas. Quanto mais se concentrava nas pessoas que comiam mais sentia a agonia da sua fome. À sua frente, nas mesas no meio do bar um grupo grande de rapazes comiam, alegres e conversando, metendo as sandes à boca enquanto sorriam uns aos outros ao mesmo tempo, contando histórias e anedotas. A fome era agora realmente forte, e os apertos do estômago faziam-no jogar a mão à barriga e ter pena dele próprio, como fazia muitas das vezes. Sentia-se um mártir, por um lado achava que merecia aquele estilo de vida pois considerando as hipóteses de porcaria que fez na sua vida, assim ao menos está a fazer justiça com as próprias mãos, nele próprio. Depois de ter tido, durante todo o seu crescimento, uma vida próspera, farta em valores e boas maneiras, decidiu fugir de casa, tornando-se independente. Os primeiros anos foram de felicidade, mas agora a situação estava diferente; olhava para trás com saudades da família e da vida que podia ter tido. Mas o seu orgulho não o permitia procurar ajuda dos pais, tinha de se salvar a si próprio. Ali no bar todos esses pensamentos passavam-lhe à velocidade da luz enquanto via as pessoas a comer e a beber, pessoas que são como ele era. A vergonha em se levantar e pedir uma moeda ao grupo de rapazes era demasiada, eles não o iam perceber. Foi então, quando a rapariga ao lado dele se levantou e deixou moedas para pagar no prato, que ele pensou duas vezes. Nunca esteve tão perto de roubar, só tinha de se certificar que ninguém à volta o via. Olhava à sua volta, congelado pelo medo de ser visto, mas tudo permanecia igual, ninguém parecia estar a observá-lo nem sequer deviam saber que ele estava lá. Os seus olhos concentravam-se nas moedas. Dois euros e sessenta cêntimos, conseguiu ele contar. Ele tinha a certeza, ia pegar nelas, agora. Então o empregado passou de rompante e levou o prato com ele. Ele ficou congelado, tinha sido apanhado? Mas não, nem o empregado reparara na sua existência. Seria ele um fantasma? Ninguém parecia sentir a sua presença, nem o empregado que com tanta ligeireza levou as moedas sem se aperceber que o fantasma por pouco não as pegava. A sua mente já estava muito confusa, decidiu ir-se embora dali, depois de beber um copo de água. Levantou-se e dirigiu-se ao balcão, com o mesmo ar fantasmagórico em que ninguém reparava que ele existia. Encheu o copo de água e fazendo corresponder o seu gesto à sua sede, dava golos enormes e quase nem dava tempo a si próprio pra respirar. Quando estava a encher o segundo, reparou numa baguete que parecia estar ali perdida. Seria tal como ele, aquela baguete, um fantasma? Mudou, começou a beber o segundo copo de água muito lentamente, olhando em volta, observando os clientes do bar conversando, acabando os cafés e os sumos. O suor que lhe corria na testa dava-lhe comichão, por fora e por dentro. Estava a sentir-se a deslizar e cair num poço sem fundo em que aquela sandes era a única coisa no mundo que o permitisse manter à tona. O empregado estava de costas a lavar a loiça, e ainda ninguém se tinha apercebido daquele fantasma. É agora, pensou o espectro invisível. Jogou a mão à baguete. Com a manga escondeu o pão e ficou um segundo a observar. Ainda era invisível a todos, então precipitou-se para a saída. Quando estava quase a sair, a mão do empregado tocou-lhe no ombro e ele congelou, virou-se para trás e agora todas as pessoas do bar o olhavam com um ar de censura e asco, paralisados pelo que haviam assistido.